A questão é como a classe trabalhadora reagirá a um governo que a ataca, aponta técnico do Dieese

Em encontro do setor hoteleiro, palestrantes destacam que população mais pobre será a maior afetada pelas ações de Bolsonaro


Mesmo após se recuperar da facada que lhe tirou temporariamente da disputa pela presidência, o então candidato Jair Bolsonaro se recusou a participar de debates e o início de seu governo confirma a razão: a agenda neoliberal que ataca direitos trabalhistas e previdenciários seria exposta e jamais venceria a eleição. Durante análise de conjuntura que abriu o encontro do setor hoteleiro promovido pela Contracs nesta terça (11) e quarta-feira (12), o supervisor técnico do escritório regional do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) em São Paulo, Victor Pagani, apontou que a grande questão é como a classe trabalhadora que ajudou a eleger Bolsonaro responderá aos retrocessos. A agenda ainda não anunciada já demonstra que a estratégia de Bolsonaro, baseada nos fundamentos ultraliberais do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, radicalizará a lógica de venda do patrimônio nacional e a diminuição do papel do Estado. Na prática, isso significa deixar de investir em saúde e educação pública, por exemplo, como comprova o esvaziamento do programa Mais Médicos e a ideia de que a universidade deve ser reservada a uma elite intelectual, como ressaltou em janeiro o novo ministro da

Educação. Mentiras sobre a Previdência Ainda nesta plataforma de esvaziamento da inclusão social, um item prioritário neste início de mandato é a reforma da Previdência que traz pontos como igualar o tempo de contribuição de homens e mulheres em 65 anos, independente de quando começou a trabalhar. Além de desvincular o piso do salário mínimo e propor um programa de capitalização, espécie de poupança compulsória e obrigatória, que não tem a participação na contribuição de empregadores e governo, como acontece atualmente.



“No Chile, o que vimos quando essa proposta foi implementada a partir da ditadura do Pinochet foi o aumento no caso de suicídio de idosos por conta do empobrecimento”, disse Pagani. A falácia da falta de orçamento para pagar as aposentadorias, apontou o coordenador do Dieese, tem relação com as prioridades eleitas pelo Estado, afirmou. “Temos 39,70% do orçamento federal destinado a para pagar juros e amortizações da dívida, as riquezas são drenadas para o sistema financeiro. E se tem esse gasto, realmente não haverá recursos para pagar a Previdência, que corresponde a 25% do orçamento. Além disso, não um aumento significativo de demandas de benefício, mas uma queda grande da arrecadação com renúncias fiscais, isenção de impostos. Só em 2018, foram R$ 283 bilhões de renúncia”, alerta. Neste pacote nefasto, que recupera renda ou emprego, precariza mercado de trabalho e faz com que a massa salarial pouco cresça, Bolsonaro acena ainda para o desmonte da qualquer traço da estrutura nacional de fomento ao desenvolvimento através privatizações de empresas nos setores de petróleo e energia elétrica. Aliados à manutenção do teto de gastos com desvinculação das receitas para políticas públicas nas áreas de saúde e educação, atualmente obrigações do Estado, e a revisão da política de valorização do salário mínimo. Inimigos do país Com críticas à carteira verde e amarela, proposta do governo que impedirá o acesso dos jovens ingressando no mercado de trabalho à Previdência, Pagani enxerga na abertura comercial proposta por Bolsonaro o retorno do Brasil à condição de colônia. “Essa proposta de redução de tarifas de importação de bens e insumos reforço a vocação de exportação da matéria-prima para aquisição de bens manufaturados, exatamente o que faz qualquer país desenvolvido. O Brasil passará a ser coordenado pelas forças do mercado internacional e a nação subordinada para produzir a partir dos desejos de quem manda no mundo. Neste alinhamento geopolítico global há um nítido interesse de reposicionar o Brasil como colônia exportadora de matéria-prima.” Como chegamos aqui Diretora de programas do Centro de Solidariedade da AFL-CIO, a maior central sindical dos Estados Unidos, Jana Silverman aponta que à eleição de Bolsonaro pode-se atribuir muitas coisas, menos surpresa. “O capital usa os meios de comunicação para fazer o debate, o sistema de educação para aplicar o conceito de competividade entre os jovens e o judiciário para criminalizar nossa luta. Com todos esses fatores não deveria ser surpreendente esse momento de derrota. Foi esse modelo que vendeu a ideia de que a crise econômica está sendo causada pela corrupção do PT e somente do PT e que cria espaços para algumas angústias da suposta classe média que não tinha expressividade.” Na avaliação de Jana há, por um lado, a classe média tradicional que se incomodou em perder alguns privilégios, como o de não pagar salário doméstico com salário digno, que teve de compartilhar lugar no avião e os bancos na universidade com quem não tinha acesso antes. E, por outro, a nova classe média, que ascendeu nos governos de Lula e Dilma e não entendeu que isso foi resultado de políticas públicas, a valorização do salário mínimo, programas de transferência de renda. “Ao contrário, tivemos uma versão brasileira do sonho americano que atribuiu o sucesso exclusivamente ao esforço pessoal misturado à teologia da prosperidade das igrejas neopentecostais.” Esses fatores, definiu, resultaram na eleição de um governo que mistura neoliberais, neopentecostais, militares e racistas sem que, necessariamente dialoguem entre si, mas que devem apostar primeiro nas pautas econômicas neoliberais antes de investir na pauta dos costumes. Oposição a tudo isso, cabe aos movimentos sindical e sociais encamparem a resistência em defesa da democracia. “O que sabemos é que estamos na linha de frente da resistência, não dá para aguardar as orientações de Lula ou do PT. O momento é de reconquistar a confiança política de nossa base. Precisamos manter nossa esperança, é possível reagir e a classe trabalhadora se reorganizar e acreditar em utopias.”


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